| "não sou um vitorioso? não preciso nem disputar eleição" |
Conforme prometido, publico aqui o excelente texto do jornal Valor Econômico. Embora extenso, é um trabalho excelente e de fácil leitura que vale a pena ser guardado em nossos arquivos.
O avião com o senador Aécio Neves
e comitiva chegou a Natal pouco depois do meio dia daquela quarta-feira, 13 de
agosto. O candidato do PSDB a presidente estava animado com o sucesso da
carreata da véspera, em Teresina (PI). Seria o início de um périplo por 12
cidades do Nordeste, que acontecia em um bom momento de sua campanha.
A aeronave taxiava no aeroporto
internacional Aluízio Alves quando o senador José Agripino (DEM-RN),
coordenador da campanha, ligou o celular para checar os recados. Sem acreditar
no que lia, mostrou a Aécio mensagens enviadas pelo filho Felipe minutos antes,
às 12h26 e 12h32, respectivamente: "Acho que caiu o avião de Eduardi Campo
e Marina (SIC)" e "Mas parece que Marina não está no avião".
"Ficamos meia hora sentados
ali, sem acreditar", lembra Aécio. "Só pensava na família do Eduardo,
na Renata, nos filhos.... Naquela hora, a questão política estava longe de ser
central." Ainda dentro do avião, Aécio
decidiu cancelar a programação em Natal. A imprensa o aguardava no aeroporto.
Desceu apenas para dar rápida declaração aos jornalistas e retornou à aeronave,
rumo a São Paulo.
Foi uma viagem calada e tensa.
Aécio, que conhecia Campos havia mais de 20 anos e mantinha com ele relação
próxima, relembrou as mensagens de texto que trocaram por celular no domingo
anterior, 10 de agosto, Dia dos Pais.
O então candidato do PSB
cumprimentara o tucano pela recuperação do filho Bernardo, um dos gêmeos de
menos de três meses que naquele dia recebera alta do hospital (a irmã, Júlia,
foi para a casa antes, com a mãe, Letícia). E Aécio parabenizou Campos pelo
aniversário, que era naquele dia.
Em São Paulo, o tucano leu
mensagem no celular enviada por padre Fábio de Melo, cantor e apresentador.
"Meu amigo, hoje pensei na vulnerabilidade da vida. (...) Não sei se pode,
mas não pense duas vezes em refugiar-se, ainda que por dois dias, para
descansar, repor suas energias, ao lado de quem você ama e traz significado à
sua vida. A crueldade do mundo está no ar. Proteja-se. Hoje você será a
intenção de minha missa. Com minha benção, padre Fábio."
Preparados para o calor do
Nordeste, Aécio e Agripino vestiam camisa de manga curta. Estava "um
gelo" em São Paulo. Cerca de seis graus e chuva. Funcionários do comitê da
campanha arranjaram um blazer para Aécio e um casaco para Agripino. Anunciaram
a suspensão da campanha, falaram à imprensa e viajaram para o Rio de Janeiro.
Aécio foi para casa ficar com a
mulher, Letícia, e filhos (os gêmeos e Gabriela, 23 anos). "Seguindo seu
conselho", escreveu a padre Fábio.
A campanha do tucano recomeçou na
quinta-feira, 21 de agosto, em Natal. No dia anterior, a candidatura da
ex-ministra Marina Silva foi oficializada pelo PSB, ainda sob forte comoção
nacional. O velório havia reunido lideranças políticas de diferentes partidos.
Marina dividia as atenções com a mulher de Campos, Renata, e os cinco filhos.
O ingresso da ex-ministra na
disputa presidencial não provocou mudança imediata na estratégia tucana. A
equipe não sabia o que fazer. "Ninguém estava preparado para aquilo. É o
imponderável", admite Aécio.
Até a morte de Campos, era grande
o otimismo na oposição. As pesquisas mostravam que mais de 70% da população
queria mudança e a aposta era que Aécio seria identificado como o candidato da
mudança, à medida que se tornasse conhecido.
Pesquisa do Ibope divulgada no
início de agosto mostrava a presidente Dilma Rousseff com 38% das intenções de
voto, Aécio com 23% e Campos com apenas 8%. O candidato do PSB não decolava.
Para os tucanos, a estrutura partidária mais forte e o tempo de televisão maior
favoreceriam Aécio.
Grandes financiadores garantiam
que os recursos iriam para ele, a não ser que o ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva entrasse no lugar de Dilma. Diziam que não havia outra hipótese.
A despreocupação com o então
candidato do PSB era tanta que pouco se falou nele em uma grande reunião em
junho, no início da Copa do Mundo, quando o time de comunicação da campanha
passou dois dias em um hotel em São Paulo, analisando cenários, oportunidades e
ameaças à candidatura de Aécio. "Se a gente dedicou meia hora para falar
de Campos, foi muito", conta um participante.
Estrategistas da campanha do PSDB
não perceberam, de imediato, o impacto da entrada de Marina. No velório do
ex-governador, em Recife, um político mineiro amigo de Aécio diz ter ouvido
dele a seguinte previsão: Marina iria aparecer com alta intenção de voto na
primeira e na segunda pesquisas e depois começaria a cair.
Depois do acidente de Campos, Aécio decidiu se recolher com a família por conselho do Padre Fábio de Melo.
Aécio estimulara a candidatura do
amigo Eduardo Campos. Chegaram a costurar um acordo de bons vizinhos: um não
lançaria candidato a governador na base eleitoral do outro. Foi Marina, ainda
como vice, que quebrou o clima dizendo que Aécio no segundo turno tinha
"cheiro" de derrota.
Para a estratégia da oposição, a
participação de Campos, ex-ministro de Lula, era importante para diluir votos e
levar a briga para o segundo turno.
As pesquisas logo mostraram que
Marina "veio com um tiro mais forte do que a gente imaginava", diz um
tucano. A campanha recomeçou do zero, com uma candidata com forte recall,
vitimizada e em ambiente totalmente emocional. Segundo as sondagens, Marina
estava atraindo votos de Aécio.
A primeira pesquisa Datafolha
realizada após o acidente, divulgada em 18 de agosto, foi sinal de perigo. A ex-ministra
teve 21% da preferência, um empate técnico com Aécio (20%). Dilma mantinha a
liderança, com 36%. Em 26 de agosto, o Ibope confirmou o crescimento de Marina,
com 29%. Dilma tinha 34% e Aécio, 19%.
O trágico acidente aéreo
aconteceu a uma semana do início do programa eleitoral gratuito da televisão
(19 de agosto). O marketing de Aécio preparou vários programas para
apresentá-lo ao eleitor. A equipe acreditava que o tucano teria cerca de 25%
das intenções de voto no início do horário eleitoral.
Aécio retomou a campanha no dia
seguinte ao da confirmação da candidatura de Marina. Apesar de já enfrentar uma
crise, com a saída do coordenador da campanha de Campos, Carlos Siqueira, a
ex-ministra se firmou. O monitoramento diário feito pela campanha tucana
mostrava que ela avançava em Estados estratégicos, como São Paulo.
A primeira reunião da cúpula da
campanha para analisar o novo cenário foi no dia 19, na ala residencial do
Palácio dos Bandeirantes. Estavam Aécio, o governador Geraldo Alckmin,
Agripino, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-governador José
Serra, o candidato a vice-presidente, Aloysio Nunes, e o prefeito de Salvador,
ACM Neto (DEM).
Avaliou-se que a campanha
precisava ser mais contundente, mais agressiva, e adotar tratamento tão
enérgico com Marina quanto o usado contra Dilma no caso das denúncias contra a
Petrobras. Mas ainda não esperavam o crescimento que a ex-ministra teria.
O comitê passou a fazer um
acompanhamento sistemático das intenções de voto nas regiões Sul, Sudeste e
Centro-Oeste, onde se concentra 70% do eleitorado do país. Um grupo passou a
pesquisar discursos e propostas de Marina, para mapear contradições.
Aécio mantinha a confiança. Em
entrevistas no Nordeste, afirmou que a "onda" favorável à sua
candidatura estava só começando.
No primeiro debate, realizado
pela TV Bandeirantes em 26 de agosto, as pesquisas qualitativas em grupo feitas
pela campanha apontavam que o desempenho de Aécio foi positivo. Nesse debate
ele anunciou Armínio Fraga como seu ministro da Fazenda, caso vencesse. Queria
sinalizar que seu ministério seria "padrão Armínio".
Cercada de mística e comoção,
Marina era uma candidata difícil de ser enfrentada. A equipe de marketing - com
Paulo Vasconcelos e o argentino Guilherme Raffo - era contra a campanha atacar
a candidata do PSB. Aécio queria manter um programa propositivo, buscando
convencer o eleitor de ser o candidato com mais condições de governar o país e
de representar a "mudança segura". Sua irmã Andrea Neves, influente
na comunicação da campanha, tinha a mesma opinião.
Naquele momento, houve
divergência entre o marketing e a ala política que defendia ofensiva contra
Marina, com a campanha mostrando fragilidades e incoerências dela. Em 27 de
agosto, o candidato a vice-presidente, Aloysio Nunes, postou no facebook que o
debate mostrou que "Aécio é oposição; Dilma, situação; e Marina,
enrolação". Depois, em entrevista, considerou "esperteza
política" as declarações da ex-ministra de que governaria com bons quadros
do PT e do PSDB.
A palavra final sempre foi de
Aécio. Ouve todo mundo, mas a decisão é sempre dele. "Eu sabia que era
preciso esperar as coisas começarem a decantar. Estávamos lutando contra uma
candidata que estava a dois palmos do solo."
O que se deu, nos primeiros dez
dias, foi definido como "apagão" da campanha tucana. A estratégia
inicial foi ineficaz para o novo momento. "O programa ficou apresentando
Aécio ao país, mas o ambiente era totalmente diferente, com uma candidata vindo
com um impulso violento. Ficamos sem chão. Não podíamos bater em quem estava
nos roubando voto", lembra um integrante da equipe do tucano.
Marina estava conseguindo se
identificar como candidata da mudança. Avançava sobre o eleitorado tucano,
assumindo propostas semelhantes às do PSDB na economia. Contava com recall da
eleição de 2010 e com a comoção nacional. E capitalizava a insatisfação da
população com a política tradicional, apesar da carreira política.
No dia 27, houve reunião entre os
grupos políticos e de comunicação em um dos quatro endereços da campanha em São
Paulo, onde fica a produtora (há ainda um comitê central, um que abriga a área
financeira e outro para a comunicação). Estavam Vasconcelos, Raffo, Andrea
Neves, os deputados Bruno Araújo (PSDB-PE), Carlos Sampaio (PSDB-SP) e Marcus
Pestana (PSDB-MG), Agripino e ACM Neto. Aécio chegou mais tarde.
Ninguém apresentou uma "bala
de prata", estratégia milagrosa para enfrentar Marina. Discutiu-se a
necessidade de Aécio concentrar a campanha nos grandes colégios eleitorais e
ser mais contundente ao mostrar ser mais capaz e ter quadros para governar.
Marina continuou subindo e ele, caindo.
O "apagão" da equipe
durou até 2 de setembro. A véspera foi o dia mais tenso da campanha. A Agência
Estado publicou declarações de Agripino interpretadas como sinalização de apoio
a Marina em segundo turno, como se jogasse a toalha. Aécio ficou irritado. No
mesmo dia, rumores de que Aécio poderia renunciar para apoiar Marina já no
primeiro turno azedaram mais o ambiente.
O segundo debate, realizado pelo
SBT no dia 1º, foi o fecho da "semana tétrica". Empatadas em primeiro
lugar com 34% no Datafolha, Dilma e Marina polarizaram o embate. Aécio, que
apareceu na pesquisa com 15%, teve um desempenho ruim na avaliação da própria
equipe. Estava "fora do prumo", segundo um integrante.
Aécio passou a noite em São
Paulo, após o debate, em conversas. No dia seguinte, deu entrevista coletiva no
comitê, ao lado de FHC. Foi interpretada apenas como iniciativa para desmentir
a suposta renúncia. Para a equipe, aquele foi o primeiro dia da reação.
"Aécio reencontrou o eixo para levar a campanha até o final: assumir com
mais clareza propostas conservadoras nos costumes e liberais na economia. Essa
é a nossa raia", conta um assessor.
Para tentar recuperar os votos do
PSDB, precisava dar maior clareza ideológica a seu ideário.
Ao se reaprumar, a campanha encontrou seu eixo conservador nos costumes e liberal na economia
O marqueteiro Paulo Vasconcelos
passou a exibir, no horário gratuito, críticas a Marina. A receita foi
associá-la ao máximo ao PT e dizer que ela não tem experiência para governar. A
ex-ministra, sob fogo cerrado principalmente do PT, perdeu ímpeto. Aécio
ensaiou recuperação.
A campanha deu início à tentativa
de "popularizar" a candidatura do PSDB, exibindo artistas e atletas
que o apoiam. Mirou no eleitor das classes "C" e "D" - essa
última com maior dificuldade. Aécio teve evento em favela, no Rio de Janeiro,
ao lado do ex-jogador Ronaldo. Nos jornais, foi publicada uma lista de cem
formuladores e gestores de várias áreas, dizendo-se "100% Aécio".
Aécio começou a gravar os
programas sem texto escrito. "Eu ouço muito. É o que eu tenho vontade de
falar. Não tenho orientação de marqueteiro. É o meu feeling. (...) O norte
político sempre foi meu. Mas ouvi muito. Ouço muito e tomo a decisão."
O tucano enfrentava outro
problema: o risco de derrota no próprio Estado, Minas Gerais. Poucas horas depois da notícia da
morte de Campos, seu candidato a governador, Pimenta da Veiga, reuniu em seu
apartamento, no bairro nobre de Lourdes, o ex-governador e candidato ao Senado
Antonio Anastasia e um pequeno grupo de pessoas próximas a Aécio. Fizeram
cálculos e conjecturas sobre o que esperar a partir daquele momento,
considerando a entrada de Marina no jogo.
Quatro anos antes, ela havia
assustado os tucanos de Minas. Entre os eleitores de Belo Horizonte, Marina
surpreendeu ao ser a candidata a presidente mais votada no primeiro turno,
batendo o então candidato do PSDB a presidência, José Serra, e Dilma, do PT.
Mas a avaliação no grupo de Aécio
naqueles primeiros dias após o acidente era que Marina teria neste ano um
período efêmero de glória eleitoral e só.
Minas era vista como um cenário a
parte no mapa eleitoral tucano. Era o colégio eleitoral - o segundo maior do
país - onde Aécio teria vitória garantida. Lideranças do PSDB diziam que Minas
daria "vitória histórica" a Aécio e uma vantagem de quatro a cinco
milhões de votos sobre Dilma.
Seu problema era fora de Minas,
segundo a avaliação dos aliados. O publicitário Paulo Vasconcelos, que
trabalhara com ele em outras eleições, insistia que o primeiro adversário de
Aécio era o fato de ser pouco conhecido no Brasil. Iniciou a campanha com um
percentual de 80% de eleitores no país que diziam não conhecê-lo. Campos
enfrentava o mesmo problema, até maior.
Com uma rotina intensa de viagens
pelo país desde o ano passado, Aécio fez, até semanas atrás, pouca campanha em
Minas. A convicção era que em seu território, palanque, carreata e corpo a
corpo eram dispensáveis. Mas não eram.
Quando Marina virou candidata,
ele foi atropelado não só no país, mas também em Minas. Pesquisa Ibope divulgada
em 1º de agosto mostrava que ele tinha 41% das intenções de voto dos mineiros,
Dilma tinha 31% e Campos, 5%. No fim de agosto, Aécio havia recuado para 33%;
Dilma ficou nos 31% e Marina apareceu com 20%.
No início de setembro, o
Datafolha mostrou Aécio atrás de Dilma entre os mineiros e empatado com Marina.
Nacionalmente, ele estava isolado em terceiro, na faixa dos 15%. O que se
previa em sua campanha era que ele teria entre 23% e 25% naquele período.
Marina havia virado estuário de voto útil anti-PT, que ia em parte para Aécio.
"Nós nos preparamos para uma
campanha e estamos disputando outra", sintetizou o presidente do PSDB de
Minas, deputado federal Marcus Pestana. "O avião do Eduardo caiu na nossa
campanha", diz o ex-deputado Luiz Paulo Velloso Lucas (PSDB), ex-prefeito
de Vitória (ES).
Em baixa nas pesquisas, Aécio
tinha ainda que vitaminar seu candidato ao governo de Minas, Pimenta da Veiga
(PSDB). Aécio mudou sua rotina da campanha e desde o início do mês vem todas as
semanas ao Estado. Sua presença resultou em melhora nas suas intenções de voto,
mas o candidato do PT, Fernando Pimentel, deve vencer no primeiro turno, diz o
Ibope.
Em meados de setembro, quando
Aécio teve pequena reação nas pesquisas, sua equipe esperava uma "curva de
crescimento" de dois a três pontos.
Em viagem do Rio de Janeiro a
Linhares (ES), em 15 de setembro, Aécio estava cansado e cochilou por mais de
meia hora. Dormira pouco à noite. "Foi uma sinfonia de choro", disse,
referindo-se aos gêmeos Orgulhoso, exibiu fotos dos filhos no celular.
Na manhã de domingo, momentos
antes de batizá-los uma cerimônia numa igreja de São João del Rei (MG), Aécio
posou para fotógrafos ao lado de Letícia. Ele com Bernardo nos braços; ela com
Júlia. "Sou ou não sou um vitorioso? Não preciso nem disputar eleição."
Ao ser questionado sobre "a possibilidade pequena" de ficar fora do segundo turno, Aécio brincou e lembrou as adversidades enfrentadas ao longo da campanha: — Essa possibilidade pequena a que você (repórter) se refere é música para os meus ouvidos, depois do que nós andamos passando por aí. Não penso em nova eleição, penso nessa eleição. (com informações de O Globo)
Ao ser questionado sobre "a possibilidade pequena" de ficar fora do segundo turno, Aécio brincou e lembrou as adversidades enfrentadas ao longo da campanha: — Essa possibilidade pequena a que você (repórter) se refere é música para os meus ouvidos, depois do que nós andamos passando por aí. Não penso em nova eleição, penso nessa eleição. (com informações de O Globo)
By Carla Luts